Maternidade x Carreira: perda da fertilidade (parte 2)

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         Sabemos que as mudanças sociais realizam grandes transformações na maneira de viver dos indivíduos. Um bom exemplo em relação a essas mudanças está nos múltiplos papéis exercidos pela mulher e o desenrolar disso nas relações afetivas. Hoje em dia, uma grande maioria das mulheres busca construir um caminho distinto do que foi vivenciado por suas mães, tias e avós. A busca por uma estabilidade financeira e uma independência profissional , para futuramente pensar em planejar uma família, é positivo, mas em contrapartida também é um problema, pois se coloca em risco a vida da gestante e do bebê. Entretanto, entendemos que é diferente a escolha de não ter filhos e a infertilidade. Sabemos que após os 35 anos de idade há uma diminuição considerável da capacidade de reprodução na mulher, pois as células sexuais femininas diminuem drasticamente dando lugar a infertilidade. Outros riscos após essa idade aumentam, como por exemplo o aumento de abortos espontâneos, diabetes, hipertensão, anormalidades fetais, partos prematuros, baixo peso do bebê, entre outros. Para a medicina a gravidez tardia é tratada com cuidados especiais desde o início da gestação.

         Scavone (2004) ressalta que é necessário um longo percurso para desconstruir antigas visões que sempre fez parte das escolhas femininas sejam consideradas. Por isso podemos refletir na seguinte questão: será que a mulher atual está realmente conseguindo romper com as imposições outrora submetidas a elas ou será que a mulher hoje vive uma nova imposição?  Será que a mulher hoje está sendo levada a assumir novos papéis e funções que na verdade não resultam do desejo pessoal dela?

         Podemos concluir que o adiamento do projeto familiar fez com que aumentasse a procura por tratamentos que permitam que as mulheres, no fim do seu clico reprodutivo, possam realizar o sonho de ser mãe. Para muitas, essa é sua última chance! Hoje, são muitos os recursos de tecnologia reprodutiva, entretanto, não é tão simples como se pensa. Por ser um procedimento caro,  por muitas vezes não se conseguir o objetivo na primeira tentativa, e por uma série de outros motivos existem muitas repercussões emocionais e psicológicas trazidas junto com a medicina reprodutiva. O profissional da psicologia com certeza é um grande aliado nestes momentos de elaboração do sofrimento, que certamente é proveniente de todo este processo na busca pela maternidade.

Referências

SCAVONE, l. Maternidade: transformações na família e nas relações de gênero. 2004.

 

 

 

 

 

Maternidade x Carreira: perda da fertilidade (parte 1)

         infertilidade-femininaNos anos de 1960 nasce o movimento feminista estendendo- se pelo mundo ocidental. Com isso nasce também um novo discurso feminino: começa- se a questionar o mito da passividade da mulher, da “submissão”, diminui- se a importância da mãe instintivamente dedicada e sacrificada, como a única razão para a felicidade e realizações de vida. Em seguida, surge  pílula anticoncepcional, fazendo com que a mulher opte ou não por ter filhos, ou seja, elas começam a refletir sobre o que efetivamente querem, tendo a possibilidade de não mais cumprirem um destino que lhes cabe, pelo simples fato de terem nascido no sexo feminino.

         Segundo Lopes(2010), atualmente, ainda que estejam aumentando cada vez mais a multiplicidade de experiências femininas, as mulheres continuam sendo de alguma forma submetidas aos antigos valores, ou seja, ao mesmo tempo que há um incentivo a profissionalização da mulher e uma cobrança por parte da família e da sociedade para que as meninas estudem e tenham uma carreira profissional, permanece a expectativa de que no futuro elas venham cumprir o papel de mãe.

        Em decorrência de toda essa mudança no âmbito feminino, o “ser mãe” para algumas mulheres não é mais entendido como objetivo primário, já que a carreira se tornou a fonte de realização pessoal. Porém, conforme o tempo passa, o adiamento da maternidade, acaba por gerar um aumento de mulheres sem filhos, muitas vezes também pela dificuldade em encontrar um parceiro adequado para formar uma família. Algumas mulheres quando decidem que é o momento certo para gerar um bebê, não conseguem , por conta da idade avançada, provocando a infertilidade.

          De acordo com Gomes, Donelli,  Picciini & Lopes (2003), do ponto de vista emocional, os estudos relatam tanto uma postura facilitadora quanto dificultadora do processo de transição para a maternidade, de grávidas de mais de trinta anos. Os pontos facilitadores seria uma maior maturidade da mulher, suas relações sociais mais bem resolvidas, melhores condições de saúde mental e maior condição psíquica de viver momentos de estresse, por ter uma identidade mais ajustada fazendo com que esteja mais bem preparada para promover o desenvolvimento emocional do seu filho. Os pontos dificultadores seriam : disposição física reduzida, maior preocupação em relação a gravidez e ao parto, além dos riscos de complicações genéticas no bebê.

         Mesmo com as constantes mudanças da sociedade nas últimas décadas, pesquisas apontam para o fato de que uma mulher infértil continua a ser vista como triste e incompleta. Segundo Maluf (2007), isto se daria porque as pessoas acreditam que elas estão impedidas de vivenciar o que é apontado como a fonte máxima da realização feminina, a maternidade. Além disso acredita- se que essas mulheres são solitárias, frustradas e inferiores, dentre outas cosias.

Estudos como o de Trindade & Enumo (2002) apontam metáforas depreciativas utilizadas para se referir as mulheres que não tem filhos, sempre ancoradas na associação simbólica mulher-natureza (“tronco oco”, “arvore sem frutos”, “árvore seca”, “terra árida”, dentre outras). Em conjunto com termos e expressões como “incompleta” e “pessoa inferior”, elas sinalizariam a permanecia do estigma da infertilidade feminina no pensamento social.

         É possível observar que a não maternidade provoca o rompimento de um modelo feminino tradicional. Estudos a respeito da maternidade tardia demonstram que uma das motivações da mulher seria colocar a carreira em primeiro lugar, obtendo sucesso profissional para depois planejar sua vida familiar, consequentemente, muitas mulheres  vivenciam momentos de angústia, por essa falta de sincronia entre o tempo pessoal, o relógio biológico e o tempo cronológico dessas realizações.

        Segundo Rocha-Coutinho (2005), mesmo as mulheres que adiam a gravidez em função da sua realização profissional, e que continuam a acreditar na sua capacidade reprodutiva , quando enfrentam a dolorosa realidade da infertilidade, da dificuldade/impossibilidade de conceber sentem- se devastadas. O adiamento da maternidade , esperando firmar- se profissionalmente e conseguir independência econômica , se estende em alguns casos , por tanto tempo que as condições apropriadas nunca chegam, ou somente chegam quando a gravidez passa a ser de risco, e, então o projeto de ser mãe pode se tornar praticamente inviável para elas.

Referências:

Lopes, H. P. Ser pai e ser mãe no século XXI. Desejo aliado a tecnologia. Bandeirante, 2010.

Gomes, A G., Donelli. T. M.,  Picciini, C. A.,  & Lopes. R. C., Maternidade em idade avançada: aspectos teóricos e empíricos. 2008.

Trindade, Z. A e Enumo, S.R. Triste e incompleta: Uma visão feminina da mulher infértil. 2002.

Rocha Coutinho, M. L. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares. Rocco 1994.

Qual é o papel do psicólogo clínico?

O que faz o psicólogo clínico?

O psicólogo clínico é um “médico da alma”. Ou seja, graças à sua vocação e à sua formação ele estará preparado para auxiliar as pessoas que o procuram a resgatarem, ou a conquistarem pela primeira vez, o contato delas consigo mesmas. Ele faz isso utilizando conversas e, principalmente, por meio de um intenso interesse que  é capaz de manter pela pessoa humana do paciente que está diante dele, com seus sofrimentos, angústias, contradições e particularidades.

Por que o seu trabalho é tão importante?

O trabalho deste profissional é essencial porque, no geral, o ser humano não lida muito bem com as suas emoções. Freud, fundador da psicanálise, descobriu que a nossa mente é regida pelo que ele chamou de “lei da inércia”. Isso quer dizer que tendemos sempre a evitar entrar em contato com situações e emoções que nos traga desconforto, incômodo ou dor (física ou mental). Na prática, isso significa que quase sempre estaremos tentando “jogar para debaixo do tapete” aquelas emoções que nos incomodam.

O psicólogo irá fazer o contrário disso: ele estará preparado não só para te ouvir (como faria um amigo, por exemplo), mas também para ajudar você a aprender a acolher suas emoções, agradáveis e desagradáveis. Também irá te auxiliar mostrando aspectos de você mesmo que não teria condições de descobrir sozinho. Nós não somos bons em julgar a nós mesmos, embora o ser humano quase sempre tem a ilusão de que conhece bem a si mesmo. Continuar lendo “Qual é o papel do psicólogo clínico?”

Psicologia Obstétrica

O que faz um(a) psicólogo(a) obstétrico(a)?

Psicólogos Obstétricos têm como objetivo trabalhar questões emocionais de gestantes e familiares durante o ciclo gravídico-puerperal, auxiliando a todos os envolvidos a viverem esse período de uma maneira mais saudável e melhor.

Por que o(a) psicólogo(a) obstétrico(a) é importante?
Toda gestação é marcada por intensos momentos de ansiedade, angústia, mudanças de humor, medos, felicidades, dúvidas, e muitos outros sentimentos por parte da gestante e dos familiares. Todos esses sentimentos podem ser difíceis de administrar quando aparecem ao mesmo tempo ou quando todos na família estão envolvidos na mesma questão. Um exemplo muito comum de como isso ocorre, é quando a gestante está muito ansiosa por causa de um exame e quer o apoio do marido, mas este, por sua vez também está com muito medo e não consegue dar o apoio que ela necessita. Essa situação pode deixar ambos ainda mais ansiosos pela falta de ajuda do outro ou pode até gerar problemas conjugais, dependendo de como o casal estava antes da gestação e como lida atualmente com suas questões.

Além disso, a gestação é um período cheio de mudanças e isso exige esforços grandes ou pequenos para a chegada do novo bebê. Nenhuma mudança é fácil de ser feita, mesmo quando o motivo é muito bom! Há mudanças corporais, na casa, na organização e dinâmica da família, na parte financeira, etc.

As mudanças são muitas e lidar com todas elas ao mesmo tempo não é nada fácil! Podemos dizer que a gravidez é um momento de crise porque desorganiza uma dinâmica preexistente e exige uma nova organização.

As dificuldades em lidar com a gestação ou com assuntos que estão ligados indiretamente a ela, como por exemplo, problemas no casamento, são muito comuns e muitas vezes precisam do auxílio de um psicólogo obstétrico para lidar melhor com as situações que emergem nesse período.

Como o(a) psicólogo(a) obstétrico(a) trabalha essas questões emergentes do período gestacional e puerpério?
Há várias formas de se trabalhar essas questões. Pode-se realizar atendimentos psicológicos individuais com a gestante ou familiares, atendimentos psicológicos em grupo (com o grupo familiar ou fazendo grupos psicoeducativos de várias gestantes e seus acompanhantes),relaxamento, treino de parto vaginal, dessensibilização de cesárea, massagens, repiração abdominal, orientação do casal em relação aos filhos mais velhos e orientação dos avós do bebê que está por vir.

Durante todo o processo de Pré-Natal Psicológico foca-se trabalhar as angústias, a ansiedade e a consciência corporal. Ao trabalhar esses três aspectos, possibilita-se que a gestante tenha uma postura ativa durante a sua gestação, auxiliando num desenrolar mais saudável do processo. Além disso, auxilia no manejo de situações específicas e emergentes da gestação dentro do seu contexto social e familiar.

Após esse período de gestação, com a chegada do bebê, a psicologia obstétrica trabalha com o chamado “quarto trimestre” mais conhecido como puerpério, em que a mulher passa por uma transição ficando mais sensível, apresentando muitas vezes certa ansiedade e uma depressão reativa, que necessitam ser acompanhadas, para evitar uma depressão pós-parto e/ou psicose puerperal. 

Nesse período são trabalhados também os aspectos relacionados a amamentação e o vínculo materno-filial que começa a ser construído.

É importante ressaltar que o psicólogo obstétrico nunca trabalha sozinho, muitas vezes as necessidades de um acompanhamento psicológico são diagnosticadas pelo médico obstetra, enfermeira e familiares que estão próximos e notam o pedido de auxílio da gestante e puérpera.

Elisangela Batista Secco 
Psicóloga Obstétrica

Fonte: Psicologia Perinatal

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